
AGOSTO 2025
DPOT APRESENTA: EXPOSIÇÃO SERGIO BERNARDES, DESIGNER
O sociólogo Gilberto Freyre defendia que o brasileiro deveria se conectar ao trópico. Neste sentido, achava que não havia nada tão representativo do Brasil e, ao mesmo tempo, universalmente moderno quanto a arquitetura de Sergio Bernardes (1919-2002).
Ele foi um personagem complexo, de difícil classificação. O próprio se apresentava como “do signo de Aries, inventor por vocação, arquiteto por formação e compositor físico-espacial por inspiração”. Foi inovador, irrequieto, sedutor, provocador, prodígio e uma penca de adjetivos que espelham seu vulcão de ideias.

Autodidata, começou a criar aos 15 anos atendendo a um amigo de seu pai, que lhe encomendou o desenho de uma casa. O resultado o levou a ter uma profissão antes do diploma. Rapidamente, suas casas se tornaram as mais desejadas do país. A crítica também aplaudiu com prêmios da Bienal de São Paulo e da Trienal de Veneza. Um de seus segredos foi criar espaços para o desfrute dos prazeres da vida, do qual era professor – foi precursor da semana de quatro dias, velejando as sextas-feiras para a ilha que mantinha na Guanabara.
Aos 34 anos, foi definido por Walter Gropius como “um arquiteto de muito futuro”. O faro do criador da Bauhaus foi certeiro. Em menos de três anos, o jovem criou suas três obras-primas, todos pavilhões de exposições – no Ibirapuera, em Bruxelas e no bairro carioca de São Cristóvão.
Antes de completar 50 anos, contudo, Bernardes percebeu que a escala do edifício não o satisfazia. Pensando no porvir, mirou o território brasileiro, propôs uma divisão a partir do fluxo das águas e fez do Rio de Janeiro o seu laboratório. Foi então designado de utópico ou, para Vilanova Artigas, “o nosso Flash Gordon”.
Se parte dos colegas não entendia seu discurso, Bernardes também era incompreendido por outros artistas. Mencionando que não captava suas palavras, a escritora Clarice Lispector declarou: “Adoro ouvir coisas que dão a medida de minha ignorância”. Não se abalou ao perder clientes e seguiu em frente: “Sou um homem maldito. Por ser maldito, eu fico com liberdades enormes de fazer o que eu quero”.
Apesar do desejo de resolver problemas planetários, Bernardes não negligenciou a escala do homem, criando barcos, carros e bicicletas. Seus móveis, reeditados pela dpot, têm a mesma potência de sua arquitetura. Uma das peças é a enigmática Poltrona Rampa, cuja forma não revela o assento. Ela responde à angústia existencial das cadeiras, classificadas por Bernardes como melancólicas, pois, quando não estão em uso, clamam pela espera. A Poltrona Rede, por sua vez, contém a obsessão que tinha por estruturas atirantadas, patente, sobretudo, na cobertura de suas obras-primas. Conectando tecnologia aos povos originários, a peça é uma espécie de trono da potência tropical brasileira – na concepção de Gilberto Freyre.
(05/08/2025_texto de abertura da exposição SERGIO BERNARDES ,DESIGNER por Fernando Serapião e Baba Vacaro)
Direção de conteúdo
Baba Vacaro
Curadoria
Baba Vacaro e Fernando Serapião
Expografia
Michelle Jean de Castro e Éder Ribeiro
Lighting design
Estúdio Carlos Fortes
Design gráfico
Júlio Mariutti, Estúdio Logos
Imagens
Fran Parente, Leonardo Finotti e Núcleo de Pesquisa e Documentação - UFRJ/FAU - Brasil
Agradecimentos
Daniela De Camaret, Felipe Hess, Kykah Bernardes, Thiago Bernardes, Jacqueline Aron
Realização
Dpot
